É um dos paradoxos da internet. Além do acesso mais livre a conhecimento que o mundo já testemunhou, a rede mundial de informações parece oferecer um volume estrondoso de inverdades, de ameaças imaginárias à saúde a maneiras fáceis demais para serem verdade de ganhar dinheiro, as quais requerem (evidentemente) que uma mensagem seja retransmitida a dez amigos. "Uma fossa", foi a definição empregada certa vez por Eric Schmidt, o presidente-executivo do Google.
David e Barbara Mikkelson estão entre as pessoas que estão tentando sanear essa fossa. O despretensioso casal de californianos dirige o Snopes, um dos mais populares sites de confirmação factual da web. Por mais de uma década eles vêm funcionando como árbitros na Era da Desinformação, ao responder à questão central de cada corrente de e-mail - isso é verdade? -, de maneira sucinta mas acompanhada de links para pesquisas mais aprofundadas.
A popularidade do Snopes - que atrai entre sete milhões e oito milhões de visitantes únicos ao mês - oferece aos Mikkelson uma posição especial para avaliar o interesse da sociedade quanto à precisão das informações que recebe. Depois de 14 anos de trabalho, a opinião deles é a de que as pessoas não se preocupam muito com a veracidade dos fatos.
Em sua atuação, o Snopes costuma se defrontar a cada semana com ampla variedade de tarefas, envolvendo difamação política ou velhas mentiras recicladas. Não, o governo do Quênia não instalou uma placa que comemora o "local de nascimento de Barack Obama". Não, a Wal-Mart não autorizou batidas policiais para deter imigrantes ilegais em suas lojas.
Não, a cadeia de restaurantes Olive Gardens não distribui vales-brindes de US$ 500 aos usuários que usem seu site para fazer reservas. Os Mikkelson falam com tranquilidade sobre o motivo para que esses rumores se espalhem como costumam.
"Os rumores são na verdade uma forma de as pessoas se reconfortarem", diz Barbara Mikkelson.
O Snopes é um dos mais conhecidos entre os poucos sites de confirmação factual que estão em atividade. Brooks Jackson, diretor de um dos outros, o FactCheck.org. cuja especialidade é a confirmação de fatos relacionados à política, acredita que as organizações noticiosas deveriam se esforçar mais quanto a isso.
"Hoje em dia, as falsas notícias que as organizações noticiosas decidem não publicar chegam da mesma forma às pessoas, por meio de falastrões profissionais, apresentadores de rádio politiqueiros, correntes de e-mail, blogs e sites como o WorldNetDaily ou o Daily Kos", ele informou em mensagem de e-mail. "O que os leitores precisariam agora, em nossa opinião, é de árbitros honestos que possam ajudá-los a distinguir entre fato e ficção".
Mesmo a Casa Branca menciona sites de verificação factual, hoje em dia. Os assessores do presidente Obama já veicularam um texto com links e explicações do PolitiFact.com, um site criado pelo jornal St. Petersburg Times, que conquistou um prêmio Pulitzer no ano passado.
Os Mikkelson não tinham a intenção de se especializar na verificação de confirmar os rumores e as calúnias da web. O site deles foi criado em 1996 como enciclopédia online de mitos e lendas urbanos, uma extensão do hobby do casal. Os dois se haviam conhecido anos antes como participantes de um fórum sobre lendas urbanas.
David Mikkelson é um pesquisador persistente sobre o folclore. Quando precisava enviar cartas para solicitar informações, costumava usar papel de cartas da San Fernando Valley Folklore Society, uma organização aparentemente oficial que ele inventou. Os Mikkelson investigaram as origens de boatos clássicos como a história do assassino armado com um gancho em lugar de mão que atacava namorados, e criaram uma audiência pequena mas interessada de leitores.
Depois dos ataques terroristas do 11 de setembro, os usuários simplesmente soterraram o casal com e-mails e editoriais sobre os culpados que haviam recebido, e sobre o fracasso do governo em deter o ataque. Os Mikkelson relutaram mas decidiram expandir o seu papel. Os dois ainda mantêm uma lista completa do que definem como "rumores de guerra".
Menos de um ano mais tarde,.o Snopes se tornou um veículo profissional. Anúncios vendidos por uma rede externa de publicidade bancam o custo mensal de US$ 3 mil de acesso e hospedagem, e o excedente é o bastante para cobrir as despesas dos Mikkelson - "a despeito dos boatos de que somos pagos, a depender de sua preferência, pelo Partido Democrata ou pelo Partido Republicano", disse David Mikkelson.
Boa parte dos recursos do site são dedicados à investigação de alegações políticas, ainda que os Mikkelson afirmem que política é o tema que menos os interessa (Barbara nem mesmo tem direito de votar nos Estados Unidos, porque é cidadã canadense).
As alegações referentes a Obama são hoje o tema de buscas mais frequente no site, "mas mesmo quando os republicanos estavam na Casa Branca, os e-mails que recebíamos costumam ser desfavoráveis às posições políticas liberais", disse David Mikkelson.
Em agosto do ano passado, ele estava pesquisando sobre uma mensagem de corrente de e-mail sobre "o fim da dinastia Kennedy", que supostamente explicava por que o falecido senador Edward Kennedy não era merecedor de elogios.
Algumas das dez informações oferecidas pelo texto procediam (sim, Kennedy de fato foi citado judicialmente por irresponsabilidade ao volante, quando estava na universidade), mas outras eram completamente inverídicas (não, ele não "fez pouco" em sua carreira legislativa). Barbara Mikkelson não concordou com a decisão do marido de verificar a mensagem. "Isso é efêmero", disse.
David concordou, mas as informações sobre Kennedy se tornaram o assunto mais pesquisado do site uma semana depois. Os Mikkelson têm dois funcionários em tempo integral, para ajudá-los a avaliar o imenso volume de e-mail recebido. Os leitores curiosos agora vêm enviando fotos e vídeos em volume cada vez maior, além dos textos, o que requer ainda mais investigação. O site publica em média um artigo novo ao dia.
Os mais duradouros deles giram em torno de temores cotidianos: vírus de computador, trapaças, crianças desaparecidas. Algumas correntes de e-mail, como aquela que oferece US$ 245 aos usuários que encaminharem a mensagem, nunca desaparecem.
"As pessoas continuam a cair no mesmo tipo de truque vezes sem conta", diz David Mikkelson.
Há leitores, por exemplo, que parecem acreditar que o governo está tentando envenená-los. Barbara Mikkelson diz que antigos boatos sobre a Aids foram reciclados para uso sobre vacinas contra a gripe suína. Para os Mikkelson, o site confirma algo que os críticos culturais lastimam há anos: a rejeição de nuanças e de fatos que contrariam a opinião pessoal do leitor.
"Especialmente na política, quase tudo vem em múltiplos matizes de cinza, mas pessoas só querem saber de branco ou preto, verdade ou mentira", diz David Mikkelson. "Em sentido mais amplo, as pessoas só querem confirmação daquilo em que acreditam".
O casal diz que recebe mensagens de agradecimentos vindas de professores regularmente, e um prêmio de uma organização que defende a correção de informações da mídia repousa sobre o televisor no escritório caseiro de David Mikkelson.
Não é só a ingenuidade dos usuários da web que preocupa os "snopesters", o nome dado aos fãs e voluntários do site. Outra preocupação se refere tendência oposta, que David Mikkelson define como "hiperceticismo".
"As pessoas recebem uma foto ou email, percebem alguma coisinha que lhes parece incorreta e logo decretam que é tudo mentira", ele disse. "Isso é tão ruim, em certo sentido, quanto acreditar em tudo".
Mas ainda que o Snopes pague as contas do casal, agora, por meio da receita publicitária, eles duvidam que estejam tendo grande impacto.
"Não é que estejamos realizando uma missão sagrada de defender a verdade", diz Barbara Mikkelson. "Na comparação entre verdade e fofoca, a verdade nunca tem chance".
Por:
Tradução: Paulo Migliacci
Fonte: Terra
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