Proteção infantil

ECA Digital: redes sociais terão novas regras para alertar crimes contra crianças na internet

Regulamentação do ECA Digital vai definir como redes sociais devem notificar casos suspeitos de crimes contra menores ao novo centro da Polícia Federal, criado em março.


Victor Hugo Silva, g1 — São Paulo Terça - 09 de Junho de 2026 às 18:42
G1 Tecnologia
Julian Christ/Unsplash
1 de 1 Ícones do Facebook, Messenger, Instagram, WhatsApp e X

Plataformas digitais já são obrigadas, por força do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), a informar às autoridades indícios de crimes envolvendo menores de idade. O próximo passo é uniformizar essa comunicação: uma portaria do Ministério da Justiça e Segurança Pública deve estabelecer, até julho, critérios claros para os relatórios encaminhados pelas empresas.

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De acordo com a pasta, a proposta em elaboração pretende simplificar a apuração dos materiais e dar mais agilidade ao combate a organizações de exploração sexual infantil.

Os dados coletados ficarão centralizados no Centro Nacional de Proteção à Criança e ao Adolescente, unidade vinculada à Polícia Federal (PF). Criado em março por decreto presidencial que regulamentou o ECA Digital, o órgão funciona como ponto de partida para a triagem das informações e o posterior encaminhamento aos órgãos de investigação competentes. A PF argumenta que o modelo abre caminho para o tratamento massivo de dados, o cruzamento de informações e a integração entre diferentes instituições.

Em entrevista ao g1, o secretário nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Victor Fernandes, explicou que o texto da portaria estabelecerá tanto padrões de conteúdo quanto prazos para as notificações das redes sociais.

"Nós temos buscado agora nesse período para a elaboração da portaria, um diálogo com autoridades policiais estrangeiras para definir qual vai ser o padrão desses relatórios", afirmou o secretário.

Entre os principais alertas contabilizados estão os provenientes de plataformas vinculadas ao Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas (NCMEC, na sigla em inglês). Trata-se de uma entidade sem fins lucrativos sediada nos Estados Unidos que repassa dados para autoridades de diversos países, incluindo o Brasil.

Segundo os números mais recentes do NCMEC, o Brasil acumulou 950 mil denúncias de abuso sexual infantil, aliciamento ou tráfico sexual de crianças em 2025 — volume 60% superior ao registrado em 2024. O país ocupa a sexta posição no ranking mundial de notificações de crimes digitais contra menores identificados pelas redes sociais, ficando atrás dos Estados Unidos, que lideram com 2 milhões de alertas no mesmo período.

Com a entrada em operação do Centro Nacional de Proteção à Criança e ao Adolescente, o Brasil passa a contar com uma estrutura própria, deixando de depender exclusivamente dos repasses feitos por organizações estrangeiras.

Modelo inspirado nos Estados Unidos

Referência para a iniciativa brasileira, o NCMEC foi instituído em 1984 pelo Congresso dos Estados Unidos na esteira de uma série de sequestros de crianças. Com a expansão da internet, a entidade ampliou seu escopo e passou a enfrentar também crimes digitais contra menores.

A CyberTipline, sistema colocado em operação em 1998 pelo NCMEC, recolhe relatos de suspeita de exploração sexual infantil enviados pela população e por plataformas digitais. Casos considerados urgentes são imediatamente repassados às forças policiais.

Companhias americanas como Instagram, Facebook e Google são obrigadas por lei a reportar indícios de material de abuso sexual infantil, aliciamento online ou tráfico sexual envolvendo crianças detectados em seus servidores.

No Brasil, o novo centro de denúncias tende a alcançar um universo ainda mais amplo, tanto pelo número de empresas impactadas quanto pela variedade de crimes que precisarão ser comunicados. A expectativa é de que o fluxo de alertas às autoridades nacionais cresça nos próximos anos.

O posicionamento das plataformas

A Câmara Brasileira da Economia Digital (camara-e.net), entidade que representa grandes redes sociais, avaliou que o novo centro "pode contribuir para o aprimoramento da articulação institucional e do encaminhamento de denúncias relacionadas à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital".

Reunindo empresas como Google, Meta e TikTok entre suas associadas, a organização lembrou que as plataformas "já contam com ferramentas de denúncia, recursos de controle parental, mecanismos de moderação e canais de apoio voltados à promoção de uma experiência digital mais segura".

Em nota, a camara-e.net classificou o ECA Digital como "um marco importante para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente online" e afirmou que "acompanha as discussões relacionadas à implementação da regulamentação".

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